Renata Carneiro
"A insistência pode ser mais dolorosa do que o fato em si, sabia? Porque eu, ah, eu tenho dessa coisa minha, só minha mesmo, de me apegar a cada rejeição e criar como se fosse semente no algodão. Com afeto e com todo cuidado doentio de quem não consegue se desprender dum mundo-nada-ideal em que você não me contou nada, e eu finjo saber em silêncio. Finjo saber que você vai embora daqui a pouco, finjo saber que você vai sentar comigo numa praça movimentada às oito da noite duma terça-feira friorenta pra cravar sete graus Celsius de despejo no peito. Finjo que sei prever o futuro e pode ser que eu esteja certo e que isso vá acontecer, mas o fato da previsão ser duvidosa, ainda que numa margem de erro pequena, me conforta. Me conforta porque você ainda não bateu o martelo, não me chamou pra falar, não decretou alforria sentimental e nem se desprendeu de mim. E enquanto eu tenho isso, eu finjo, finjo, finjo e suplico pra mim mesmo que tá tudo bem."
Recicatrizar 
"Que irônico descobrir que meus dias são uma consequência de você em mim, que você pode ter um alguém que consegue te cobrir de bem querer simplesmente por existir e permanecer contigo, que teus dias podem ser baseados em decidir se esconder debaixo do primeiro cobertor e não querer receber a visita de ninguém ou simplesmente dar bom dia pra cachorros porque os cachorros também merecem um ótimo dia. Você tem a capacidade de mudar o meu jeito de enxergar as manhãs, de observar as cores e as coisas, de timidamente preferir viver e de sorrateiramente querer levantar da cama com mais bom humor, com um belo humor! As pessoas têm a capacidade de existirem e deixarem de existir em você, porque existir em alguém é simplesmente se importar e estar ali existindo sabe? E a sua existência em mim é o meu sorriso, a tua dependência de mim se torna um paraíso que eu preciso e é ai que os meus dias deixam de ser chamados de dias pra se apelidarem com teu nome. De algum modo quando queremos alguém em nossas vidas elas transformam e se tornam nossas manhãs mais lindas, nossas tardes mais bem assistidas e nossas noites mais bem dormidas. Porque quando a existência de alguém é suficiente pra te causar bem ela retoma algo capaz de te fazer enxergar as coisas de uma forma diferente, a sua maneira de viver se torna dependente e a escolha de permanecer deixa de ser sua pra ser de outra pessoa, soará estranho, mas é o jeito com que esse alguém te trata que fará com que você tenha momentos felizes ou infelizes, calmos ou agitados, vivos ou nublados. Na verdade é essa dependência que dirá se seus dias vivendo são dias a mais ou dias a menos."
Willians Souza
Era apenas um jeito de fugir de tudo que me feria, mas acabou acendendo o pavio da bomba.

Prazer, eu sou a bomba, e digamos que ultimamente não tenho estado bem, e nada e nem ninguém estava me entendo, na verdade nem mesmo eu. Então o que melhor para refletir do que um passeio ou uma viagem? Esse é o pensamento de muitos, mas talvez não seja a solução para tudo, porque o meu problema foi parar pra refletir. Não está entendo o que falo, certo? Talvez agora entenda. Sentia-me bem durante grande parte da viagem, sempre distraída, procurando fazer várias coisas, e foi durante um mergulho para testar minhas habilidades como mergulhadora que parei para a reflexão. Submersa, ouvia apenas a contagem dos segundos do lado de fora, e em minha cabeça passava um turbilhão de coisas, algumas boas, outras nem tanto. E o mais forte de tudo é que eu percebi que não queria estar lá, nem em casa, nem em lugar algum, só queria realmente era sumir, esquecer tudo que um dia fui, todos que me aparecerem e contribuíram para o que sou agora, simplesmente explodi internamente, e ninguém percebeu que eu tinha esquecido de sair da água e havia mais de um minuto.E já sem fôlego algo me puxou para superfície, e assim que abri os olhos percebi que não tinha sido ninguém, era apenas eu, ali sozinha comigo mesma, em autodestruição. Porque nem mesmo a solidão que me perseguia incessantemente, não me quer mais.

Seus olhos gritavam,

ensurdeciam, não se calava nem com os olhos fechados. Derramava gestos, demonstrava silêncios. De seus olhos caíam gritos, pedidos. Muda em seu exterior, berrante em seu interior,

enquanto procuro um vocábulo que me esclareça as manhãs, planalto ou destino 

pergunto aos dias se é tempo ou declínio de luz que anoitece as minhas janelas

talvez porque a minha tristeza é a do arqueólogo sem homens 
creio saber que não é culpa do silêncio de luz solar
antes poderia ser do tempo, planalto ou destino
mas porque o meu ofício é saber do homem através da matéria
sei que sem ele tudo se extrai e tudo se apaga sem causas naturais

as manhãs renascem no planalto
as janelas anoitecem a cada nosso apagamento

"Mas as coisas vão acontecendo… as pessoas se vão, ou deixam de nos amar, ou não nos entendem, ou nós não as entendemos… e nós perdemos, erramos, magoamos uns aos outros. E o navio começa a rachar em determinados lugares. E então, quando o navio racha, o final é inevitável. (…) Mas ainda há um momento entre o momento em que as rachaduras começam a se abrir e o momento em que nós rompemos por completo. E é nesse intervalo que conseguimos enxergar uns aos outros."
— Cidades de Papel.  
"Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim."
Sá Carneiro  
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